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Sem
manifestar nenhum sintoma, a pressão dentro do olho
começa a subir lentamente, levando à perda do campo
visual. É o glaucoma, uma doença que acomete 67
milhões de pessoas pelo mundo e 900 mil brasileiros.
Embora ainda não haja cura para esse mal, a medicina
pode controlá-lo por meio de diagnóstico precoce e de
colírios cada vez mais eficientes e com menores
efeitos colaterais. O grande desafio dos especialistas
quando o assunto é glaucoma é flagrar o problema o
quanto antes e preservar a função visual dos
pacientes, interferindo o mínimo possível em sua
qualidade de vida. Não é tarefa fácil, pois essa é uma
doença sem sintomas e, muitas vezes, não é percebida
pelo paciente até que tenha ocorrido uma extensa perda
do campo visual. É triste e frustrante para nós,
oftalmologistas, receber um paciente com a doença em
estágio avançado e saber que a situação poderia ter
sido controlada se fosse descoberta mais cedo. Mais
triste ainda é informar esse paciente que toda essa
perda da visão é irreversível. Para os desavisados, o
glaucoma é a principal causa de cegueira no mundo.
Portanto, é preciso atenção. Ray Charles, músico
recentemente falecido, já estudava piano aos seis anos
de idade quando ficou cego em decorrência do glaucoma.
Como no dia 26/5 comemora-se o Dia Nacional de
Combate à Cegueira pelo Glaucoma, torna-se
imprescindível alertar a toda a população que,
normalmente, o glaucoma não pode ser evitado. Porém,
com sua detecção nos estágios iniciais e com o
tratamento adequado, a cegueira em função do glaucoma
pode, sim, ser prevenida.
Para entender como surge o glaucoma, basta pensar no
olho como uma pia, na qual a torneira e o ralo
permanecem permanentemente abertos. O humor aquoso, um
líquido produzido por uma pequena estrutura, chamada
corpo ciliar (situada atrás da íris), fica
constantemente circulando pelo cristalino, pela íris e
pela córnea, nutrindo e limpando a região. Depois é
escoado, através de um tecido, a malha trabecular, que
serve como um ralo. Quando há falha na drenagem desse
líquido, a pressão dentro do olho aumenta e comprime o
nervo óptico. Esse nervo é o responsável por carregar
a informação visual da retina até o cérebro.
Comprimidas, suas células nervosas vão morrendo
lentamente, resultando em perda visual sem retorno.
Idade, hereditariedade e raça são consideradas quando
se fala em causas do glaucoma. Embora possa afetar
qualquer pessoa, quem tem mais de 45 anos, tem algum
glaucomatoso na família (principalmente parentes de
primeiro grau), tem descendência negra ou asiática
está sob maior risco. Há ainda, outros fatores que
podem interferir como diabetes, miopia, uso prolongado
de medicamentos como corticóides e anti-depressivos ou
alguma lesão ocular prévia. É importante citar que,
como a pressão intra-ocular elevada é o
principal fator de risco para o desenvolvimento do
glaucoma, mesmo se um paciente não tiver nenhuma das
características acima, mas começar a apresentar
resultados elevados na pressão do olho nos exames de
rotina, o momento será de atenção.
Quando a doença é diagnosticada, as opções de
tratamento vão desde o colírio, laser e até a cirurgia
com ou sem o implante de válvulas. Contudo, a
intervenção cirúrgica a laser ou convencional, que
visa criar um novo caminho para "circular" o humor
aquoso (aquele que se acumula no olho provocando o
"sufoco") é indicada apenas quando o tratamento
clínico não controla bem a pressão do olho. Na maioria
dos casos, os colírios agem de forma a manter essa
pressão controlada. Ocasionalmente, também são
necessários medicamentos via oral.
Como os leitores podem perceber, o glaucomatoso tem
que ter disciplina, mas não precisa mudar
completamente seus hábitos ou ter sua vida totalmente
modificada em função da doença. Basta atenção e,
assim, estará afastando a ameaça da cegueira. Não que
seja fácil, mas é perfeitamente possível.
Lamentável é que, embora nos últimos anos o Brasil
tenha avançado de forma espetacular na prevenção e no
tratamento da saúde visual, as necessidades da
população ainda estão sendo atendidas em ritmo muito
aquém do que é adequado. Pesquisas apontam que 40% dos
pacientes que tem o diagnóstico de glaucoma já chegam,
em sua primeira consulta, apresentando cegueira em um
dos olhos - o que caracteriza estágio avançado da
doença. Reiteramos que os exames de rotina são
essenciais para a saúde dos olhos, principalmente
quando estamos falando de glaucoma. A consciência
dessa necessidade, então, passa a ser vital para
afastar a possibilidade de perder a visão. Sabemos,
entretanto, que, se não houver um trabalho sério,
integrando governo, profissionais médicos e entidades
ligadas à área, o glaucoma continuará sendo uma das
principais causas de cegueira evitáveis do Brasil,
juntamente com a catarata.
Que esse Dia Nacional de Combate à Cegueira pelo
Glaucoma seja um alerta para as pessoas, para que
multipliquem o alcance dessa mensagem a respeito da
importância da prevenção através de exames periódicos.
Maior intercâmbio de informações entre oftalmologistas
e pacientes, somado à intensificação do tratamento de
controle da doença, são fatores capazes de mudar uma
realidade triste, de pessoas que perdem a visão devido
a uma doença que pode ser controlada.
"O olho é a janela do corpo humano pela qual ele abre
os caminhos e se deleita com a beleza do mundo"
(Leonardo da Vinci). |